Gosto de retratar mulheres. Afinal somos profícuas, intensas, múltiplas. Somos muitas e somos únicas. Algumas mulheres que retratei, as enxergamos em nós mesmas, em nossa vizinha, mãe, tia. Não são fictícias, são verdadeiras, mas retratadas como mesclas, reflexos. Hoje os deixo na companhia de uma mulher que soube ser muitas sem jamais perder-se de si mesma e que tinha em seus olhos o porta-voz de todas elas. Era através deles que escapava sua alma e de todas as mulheres que viveu. Grandes janelas escancaradas e falantes. Assistam ao vídeo e desfrutem do encantamento que esse par de olhos proporciona. Desejo a todos uma linda viagem!
“Os girassóis lentamente viram suas corolas para o sol. O girassol é o grande filho do sol. Tanto que sabe virar sua enorme corola para o lado de quem o criou.” Clarice Lispector
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quarta-feira, 27 de outubro de 2010
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Amélia às avessas
Amélia tocava flauta doce, mas nem o doce instrumento que tocava, nem o nome que carregava lhe garantiram uma personalidade amena. Dada a excessos, se amava, ia às últimas consequências. Demarcava território se preciso fosse. Qualquer coisa que protegesse o amor das perdas e danos. A principio, os homens se encantavam com aquela mulherque de tão arrojada, faltou pouco pra ser homem. Uma mera distração, um cochilo da natureza talvez. Quando chegavam às vias de fato era ela quem dava o tom. Atordoados, seus parceiros se afastavam , intimidados pela trepidante Amélia. Ela nunca conseguiu entender a vocação para desertor que os homens tinham. Com lábios e olhos pintados , juntava os cacos e ia-se embora em busca de um novo amor.Olíva Comparato
domingo, 3 de outubro de 2010
Uma simples constatação
Era uma vez uma mulher cansada. Passava os seus dias vistoriando a própria vida e a de todos que habitavam sobre os seus domínios. Perfeccionista, incomodava-lhe um tapete torto, uma gaveta mal fechada, resquícios de pão ainda que imperceptíveis a outros olhos que não os seus. Quanto a sua própria imagem não prestava muita atenção. Um eterno vinco na testa. os cabelos eternamente por retocar. Convivia intimamente com um forte rancor que lhe fazia arder o estômago e ainda mais ácidas se tornavam suas palavras e observações. E quando a noite chegava ela vestia a mais confortável das camisolas e despedia-se do marido com um cortante e irreversível até amanhã. E todos tinham que seguir o ritmo que ela impunha e suas prioridades tinham que ser as de todos para que a vida fluisse sem dissabores. Como se cansava aquela mulher! Sinto um peso sobre os ombros só em descrever o seu cansaço. Acordava com a vassoura nas mãos e passava os seus dias em meio a sabões, alvejantes, limpa vidros. Na hora do banho das crianças, suas mãos pesadas percorriam-lhes os corpos com energia, como se fossem constantemente preparadas para uma minuciosa vistoria. Enquanto isso a vida lhe escapava, ia-se embora como fumaça de insenso. Ela foi murchando a olhos vistos e aos cinquenta e poucos anos se foi completamente. Vinte anos se passaram e sua casa, de tão limpa, nunca mais precisou ser arrumada. Nunca mais houve poeira em seus móveis ou fogão engordurado. E assim permanece até hoje, estéril como as mentes de seus familiares totalmente desprovidas de doces lembranças.
Olívia Comparato
Olívia Comparato
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